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Pedro era um bom rapaz: honesto, responsável, bom aluno da faculdade e esportista. Era bonito também, com os olhos azuis-piscina e o corpo bem torneado da natação. O problema de Pedro era um só: ele era gay.
- Bom dia, mãe. – disse, pegando um pedaço de torrada e sentando.
- Dia, querido. – ela respondeu, colocando a jarra de café na mesa.
E, é claro, seus pais não sabiam. Tudo era muito recente.
Bebeu o café de um gole, enfiou o resto de torrada na boca e saiu, o cabelo ainda despenteado. Estava atrasado para a aula de Direito Constitucional, o que lhe lembrava de mais um problema. Você já ouviu falar de muitos advogados procurados e badalados que fossem gays? Pedro não.
- E aí? – Gustavo, seu melhor amigo, o encontrou na entrada do prédio e o cumprimentou sorrindo.
- E aí nada. E tu? – Pedro respondeu, com um tapinha nas costas do moreno.
- Nada também.
Ah, e Pedro acreditava estar apaixonado por Gustavo, que não dava nenhum sinal de jogar no outro time. Estava muito ferrado. Devia logo era cortar os pulsos e acabar com essa viadagem (com o perdão do trocadilho).
Os dois conseguiram entrar na sala para o primeiro período cinco segundos antes do professor entrar. Abriram os cadernos e, por duas horas, Pedro esqueceu os abacaxis que carregava.
O pior é que não adiantava nem discutir: ele era gay, gostava de meninos, era atraído e atraía meninos. Era um bicha, uma drag queen, uma boneca, uma menina, que fosse. Apenas e tão-somente por isso, ele iria bater de frente com tanta gente, sofrer tanto, ser ameaçado de ir para o inferno e tachado de “anormal”.
Talvez ele devesse se envolver com moda. Ou teatro.
[continua...]
Depois da Corrida (4)
He wonders if he can take back some of his past
Tartaruga, no momento em que o Coelho era recolhido da sarjeta pelo filho, estava em um avião exclusivo para ela e sua banda. Era sua segunda turnê mundial. Já estivera em 15 clínicas de reabilitação, nenhuma por mais de 26 horas. Tivera 10 overdoses, duas brigas de faca, cortara os pulsos e lançara mais dois CDs. Era o epítome do punk na Floresta, com seu moicano e roupas rasgadas.
Não percebia que era apenas um boneco na mão da mídia. Não percebia que já havia perdido sua essência. Não percebia que, apesar das noitadas, dos shows e das drogas serem ofuscantes, não o satisfaziam. Estava cego.
Outras nove primaveras se passaram antes que os dois adversários se encontrassem. Foi um momento tenso. Coelho, já formado, saía do escritório de advocacia onde trabalhava e Tartaruga, completamente drogado, passava por ali, acompanhado por uma mulher de vida fácil.
O réptil reagiu encarando agressivamente seu Coelho. Foi ignorado; Coelho já encontrara a paz, não culpava Tartaruga ou mesmo sentia desejo de brigar. “Deus lhe abençoe, filho” foi tudo o que disse. “Deus lhe abençoe”.
É neste ponto que a lenda começa. Tartaruga, ao ouvir aquela voz calma e rouca, teria tido uma visão: uma luz ofuscante o envolvia, aquecendo-o e acalentando-o, e ouvira a voz de sua falecida mãe. Quando acordou, estava em uma UTI de alta tecnologia, com o antigo adversário a seu lado.
A vida da estrela de rock mudou para sempre depois do acontecimento. Largou as drogas, a prepotência e as relações superficiais e descartáveis. Retomou contato com o pai, já idoso e sozinho no mundo, e com os 2 irmãos. Criou uma ong para ajudar as famílias pobres da Floresta (ele mesmo já havia estado naquela situação), que ensinava profissões aos pais e custeava a faculdade dos filhos, baseado no histórico escolar.
E assim acaba a nossa história. Como qualquer outra, cheia de reviravoltas, descobertas, arrependimentos e amadurecimentos. Não direi que todos foram felizes para sempre, porque esta não é uma fábula com moral. É apenas um conto.
Maíra Carvalho, 05/12/07