Delírios, Reflexões e Ilusões Verborrágicas


My my my, it’s a beautiful world…
Janeiro 26, 2008, 4:18 pm
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Ele tinha muito na cabeça. Coisa demais. Desenhava, pintava, tocava violão, falava, filmava e escrevia, principalmente; estava sempre fazendo algo para expressar o que lhe passava pela cabeça. Não adiantava muito, para falar a verdade. Criava mais do que conseguia expressar.

Ele criava personagens que nunca usava em nenhuma histórias. Trechos e mais trechos, que normalmente não eram incorporados a nenhuma narrativa. Roteiros inteiros que nunca eram escritos ou filmados. Dramas que nunca eram levados ao público. A complexidade humana era grande demais para ele. (mais…)



E pensar…
Janeiro 23, 2008, 6:58 pm
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Que, há pouco mais de 20 anos, quando a AIDS surgiu, as pessoas não acreditavam nessa doença. Achavam ser uma paranóia, conspiração, que fosse. Continuavam transando sem camisinha, com múltiplos parceiros.E os pobres aidéticos? Sofriam muito. Não só o estigma de ser “doença de viado”, como o fato de ser completamente desconhecida. Tratamento, transmissor, tudo era um mistério. Eram separados do convivío com todos, usando roupas só apra eles, louça só para eles – caso a AIDS fosse transmissível pelo ar, como a tuberculose.

Hoje, apesar de ser a doença que mais se fizeram descobertas em pouco tempo, a coisa está como está. Pessoas desinformadas que ainda acham que conviver com portadores do vírus HIV é prejudicial; que beijo passa o vírus; que é coisa de homossexual; que não tem problema transar sem camisinha. (mais…)



Every You and Every Me
Janeiro 20, 2008, 12:40 am
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Os olhares se encontraram assim que ela entrou no recinto. Ele sorriu daquela maneira que só ele sabia, e ela derreteu. Ela sorriu de volta, e ele derreteu também. Os dois se perguntaram se algum dia teriam uma chance. Quando haviam se conhecido, ele namorava. Um ano e alguns meses depois, ele estava solteiro e ela estava envolvida com outra pessoa. Hoje, nenhum dos dois sabia se o outro estava solteiro ou não. Eles não conversavam sobre romance.

Ele estava sentado e ela estava atrasada, então ela beijou a testa dele como cumprimento e continuou andando. Quando voltou, ele perguntou se ela gostaria de ir ao show da banda dele naquele final de semana. Ela sabia que o local era um tanto que underground, perigoso para uma mulher sozinha, mas prometeu que iria. Era importante para ele. Mordeu o lábio quando pensou que talvez rolasse algo. (mais…)



Pedro (5)
Janeiro 17, 2008, 10:15 pm
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- Gustavo… – Pedro falou, a voz baixa e segura.

- Fala. – O amigo respondeu distraidamente enquanto estudava.

- Eu sou gay.

- Isso é coisa séria demais pra se brincar. – Gustavo parecia levemente irritado, mas não parou de ler.

- Não estou brincando. – Pedro conseguia sentir as gotas de suor descendo pela sua nuca, e isso com certeza não o deixava mais confortável.

- Desde quando? – Gustavo fechou o livro e olhou nos olhos do melhor amigo com tal intensidade que era difícil dizer se ele estava perplexo ou enojado.

- Difícil dizer… Não se acorda um dia e se descobre que é gay. Acontece aos poucos.

Okay, Pedro estava oficialmente se borrando.

- Mais de um ano?

- Sim.

- Mais de dois?

- Não.

- Já beijou algum homem?

- Vários. – Pedro estava ficando nervoso com aquele interrogatório. Pedro detestava interrogatórios, eles o faziam sentir-se culpado.

- Quando nós estávamos bêbados e nos beijamos significou algo para você?

A pergunta o pegou de surpresa. O assunto nunca havia sido mencionado, e Pedro realmente acreditava que o amigo não se lembrava. E perguntar isso, assim, sem preparar o terreno, parecia quase uma heresia. Mas Pedro não costumava mentir.

- Sim. Mas não mais.

Gustavo, então, ficou em silêncio por longos segundos.

- Cara… Da próxima vez que eu te chamar de bicha, vai ser verdade! – disse, sorrindo.

É, talvez ser gay não seja tão mal assim, Pedro pensou. Era um pensamento piegas e gay, mas que fosse. Pedro era homossexual mesmo, tinha autorização até para desmunhecar.



Pedro (4)
Janeiro 15, 2008, 10:51 pm
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É, Gustavo não lembrara no dia seguinte. Nem na semana seguinte, ou no semestre seguinte, e Pedro resolvera deixar aquela história para trás. Ter a amizade de Gustavo era bem melhor que arriscar e não ter nada, certo? Uma opção covarde, decerto, mas Pedro nunca dissera que era um poço de coragem.

Um problema a menos para riscar da lista… Pedro gostava quando as coisas simplificavam. A situação ficara ainda melhor quando, um mês depois do beijo, ele descobrira que Gabriela era bissexual.

- O quê? Você é bissexual?

- Aham.

- De verdade?

- Aham.

- Quando passa uma menina tu olhas os dotes traseiros e dianteiros?

- Aham.

- Tu ficas com meninas?

- Aham.

- E ficou com Gustavo?

- Aham.

- E ele sabe que tu é bi?

- Aham.

- E tu tens amigos bi e gays e coisa e tal?

- Aham.

- Nossa.

Descobriu em Gabriela uma pessoa em quem confiar, mesmo depois que ela e Gustavo se afastaram. Uma noite, depois de uma sorvetada com os amigos, contara para a garota que era gay. E a resposta que ouvira fora “legal”. Era a primeira vez que Pedro se sentia verdadeiramente acolhido. Ele não sabia, mas sua iniciação no submundo gay começava ali.

Cabelos multicoloridos, roupas que ele só vira em revistas, travestis, transexuais, calças de couro, bissexuais, homossexuais, heterossexuais, flertes descarados, casais, de tudo um pouco havia naquela salada. Fez muitas amizades naquelas primeiras semanas. Era estranhamente confortável conversar com meninos sobre meninos e meninas sobre meninas de uma maneira natural.

A mãe começou a reclamar que ele nunca parava em casa. Continuava com ótimas notas na faculdade, mas Gustavo e boa parte do grupo antigo fora um tanto que deixado de lado. Pedro sabia que Gustavo sentia sua falta, e não era sempre que conseguia conciliar saídas com os dois grupos de amigos. Mas Pedro necessitava distância para superar tudo aquilo.

[continua...]