Delírios, Reflexões e Ilusões Verborrágicas


Depois da Corrida (3)
outubro 21, 2007, 2:46 pm
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Depois da Corrida (3)

There’s always hope

Quatro anos se passaram. Alguns animais haviam se mudado da Floresta, como o Texugo. Outros, como a Doninha, haviam prosperado e comprado a toca própria. A vegetação parecia mais vistosa, os animais, mais sábios, e as crianças, mais precoces.

Seu Coelho e Dona Coelha, depois de tanto sofrimento, estavam em um processo de redescoberta. Haviam se divorciado dois anos antes, quando a tolerância de Dona Coelha chegara ao limite. Mas, naquele momento, Coelho estava sóbrio. Um ano e meio atrás, abandonado pelo amor da sua vida, sem a companhia dos filhos e sem um tostão para comprar bebida, sua vida mudara.

Seu filho mais velho, que havia encontrado paz na religião e era pastor da Igreja Evangélica Batista Episcopal Romana Do Sétimo Dia da Criação, encontrara-o sentado na calçada, com uma garrafa de uísque vazia ao seu lado e lágrimas no rosto. Sensibilizado, acolheu-o para a igreja, lhe dera um banho, comida e roupas limpas.

Fora o início de longos meses de cura. Crises de abstinência, recaídas, orações, livros, palestras, hobbies, os nove passos… Seu Coelho agora estava terminando o processo, pedindo perdão a todos que havia magoado. Sóbrio e esperançoso, trabalhava como eletricista e fazia curso noturno de Direito. Ainda amava Dona Coelha.

[continua…]

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Depois da Corrida (2)
outubro 13, 2007, 9:08 pm
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Depois da Corrida (2)

The Rise of The Turtle

Dizem as más línguas que a Tartaruga, após ganhar a fatídica corrida, entrou de cabeça no mundo de sexo, drogas e rock’n’roll. As boas línguas a defendem argumentando que foi um momento de novas experiências, de muitas tentações, nada mais normal que perder um pouco o foco.

A Tartaruga era um bicho solteiro, jovem, recém-saído da faculdade. Inexperiente, nunca havia bebido, usado drogas ou mesmo se relacionado com outras tartarugas sem que fosse algo sério: presa fácil do brilho do estrelato.

A atenção da mídia, as fãs, o prestígio e tudo mais que acompanhou sua fama meteórica seriam sua perdição. Logo começava a circular entre as estrelas; simpático e honesto, conquistou muitos afetos. As cartas de fãs começaram a lotar sua caixa postal e ele fez sua primeira sessão de fotos para uma revista adolescente no mesmo mês.

Em três meses, havia se casado com uma cantora pop, viciado-se em maconha, feito dois clipes, dez propagandas e começado sua própria banda de rock. Com o cachê milionário comprara uma casa boa para a mãe e uma mansão para si, e vivia confortavelmente. Começaram a correr boatos suspeitos nos quartos da Mansão Turtle.

No mês seguinte, estava separado e em turnê. Um complexo de divindade nascia: brigara com a família, com o empresário, já cheirava cocaína antes dos shows e tivera sua primeira DST. Suas apresentações tornavam-se místicas e disputadas, sua música expressiva e muita bateria para acompanhar.

A variedade de drogas consumidas e a dependência aumentavam exponencialmente, assim como o cachê de shows e a venda de CDs. Tartaruga vivia o sonho americano: fama, mulheres, dinheiro e rock’n’roll. O brilho daquele estilo de vida parecia eterno.

[continua…]



Depois da corrida (1)
outubro 6, 2007, 8:06 pm
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Depois da corrida (1)

The Fall of The Rabbit

Dizem as más línguas que depois que o Coelho perdeu a corrida para a Tartaruga ele afundou na bebida. As boas línguas o defendem dizendo que foi um momento difícil, de reavaliação de seus conceitos. O coelho definia-se como corredor, e havia perdido isso.

Paulatinamente, as noites no bar transformaram-se em madrugadas, os trocados lá gastos, em fortunas e as horas que passava com os filhos, em minutos. O bar transformou-se em sua nova casa.

A situação tornou-se difícil para a Dona Coelha quando Seu Coelho parou de trabalhar. Cinco meses após a infeliz corrida e ela já procurava emprego, preocupada com o sustento de seus 22 filhos.

Foi uma época de sacrifícios e sofrimento, os Coelho recordariam anos depois. Seu Coelho passara de pai amoroso à pai ausente, autoritário e irritado; Dona Coelha, de mãe presente à mãe que passava o dia fora trabalhando e chegava em casa cansada e desanimada.

Alguns amigos da família declaram que os mais novos sofreram mais com a súbita ausência dos pais e crescentes dificuldades financeiras, mas os próprios rebentos concordam que o grande fardo caíra sobre os mais velhos. Para estes, somava-se aos problemas a tarefa de ser o pai e mãe substitutos aos irmãos.

[continua…]