Delírios, Reflexões e Ilusões Verborrágicas


My my my, it’s a beautiful world…
janeiro 26, 2008, 4:18 pm
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Ele tinha muito na cabeça. Coisa demais. Desenhava, pintava, tocava violão, falava, filmava e escrevia, principalmente; estava sempre fazendo algo para expressar o que lhe passava pela cabeça. Não adiantava muito, para falar a verdade. Criava mais do que conseguia expressar.

Ele criava personagens que nunca usava em nenhuma histórias. Trechos e mais trechos, que normalmente não eram incorporados a nenhuma narrativa. Roteiros inteiros que nunca eram escritos ou filmados. Dramas que nunca eram levados ao público. A complexidade humana era grande demais para ele.

Desenhava, tentando captar a essência de algo que havia visto ou imaginado; às vezes conseguia, às vezes não. Filmava, tentando expressar pela sétima arte situações, personagens e emoções que sua mente criava; normalmente não conseguia. Escrevia abundantemente, e nunca era suficiente.

Nunca sabia se estava fazendo algo de qualidade. A linha que separava uma obra-prima de uma bela porcaria lhe era desconhecida. Ele continuava tentando, mesmo assim, desvendar a essência das coisas. O que fazia alguém ser cativante, o mistério do sorriso da namorada, o medo da morte e a dor da perda, da saudade e da despedida; tudo era campo de estudo. O brilho dos olhos de quem conquistava algo, a simplicidade de uma amizade sincera; o mundo era vasto demais.

Tinha consciência que, com o tempo, ele progredia. Ainda assim, as palavras que achavam para escrever nunca eram as exatas; a linha que desenhava nunca era a que queria traçar; a música que cantava nunca era expressava o que queria do jeito que ele queria. Mas ele não desanimava. Um dia conseguiria a história perfeita, o filme perfeito, o desenho perfeito.

 



Every You and Every Me
janeiro 20, 2008, 12:40 am
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Os olhares se encontraram assim que ela entrou no recinto. Ele sorriu daquela maneira que só ele sabia, e ela derreteu. Ela sorriu de volta, e ele derreteu também. Os dois se perguntaram se algum dia teriam uma chance. Quando haviam se conhecido, ele namorava. Um ano depois, ele estava solteiro e ela estava envolvida com outra pessoa. Hoje, nenhum dos dois sabia se o outro estava solteiro ou não. Eles não conversavam sobre romance.

Ele estava sentado e ela estava atrasada; ela beijou a testa dele como cumprimento e continuou andando. Quando voltou, ele perguntou se ela gostaria de ir ao show da banda no final de semana. Ela sabia que o local era um tanto que underground, perigoso para uma mulher desacompanhada, mas prometeu que iria. Era importante para ele. Mordeu o lábio quando pensou que talvez rolasse algo.

Ele passou as mãos pela calça sem perceber. Conseguiriam romper a barreira da amizade? Ela estivera ao lado dele naquele período desanimado e frustrado da sua vida. Ela o ouvira falar sobre sua vida, sobre seus medos passados e presentes, sobre suas idéias. Ele era o único que ela conhecia com um espírito verdadeiramente livre, o único que podia e sabia discutir teorias, experiências e pensamentos. Sentia-se confortável com ele.

Nenhum dos dois realmente sabia quando a linha da amizade havia sido ultrapassada. Demoravam a perceber os próprios sentimentos. Ele dedilhava uma música no violão quando ela saiu. Ela o achava lindo. Ele a achava linda. Apesar de alguns anos de diferença, ele a considerava uma igual. Ele a olhou sair, andando com aquele rebolado hipnotizante.

Ela não foi. Forças maiores: ficara sem carona. Demoraram duas semanas depois disso para se encontrar, e era tarde para justificativas. Ele não se magoou. Sabia que ela só não iria por motivos fortes. Estava feliz em vê-la, de qualquer maneira. Teria outra apresentação em alguns dias. Quem sabe então eles tivessem uma chance.



Pedro (5)
janeiro 17, 2008, 10:15 pm
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– Gustavo… – Pedro falou, a voz baixa e segura.

– Fala. – O amigo respondeu distraidamente enquanto estudava.

– Eu sou gay.

– Isso é coisa séria demais pra se brincar. – Gustavo parecia levemente irritado, mas não parou de ler.

– Não estou brincando. – Pedro conseguia sentir as gotas de suor descendo pela sua nuca, e isso com certeza não o deixava mais confortável.

– Desde quando? – Gustavo fechou o livro e olhou nos olhos do melhor amigo com tal intensidade que era difícil dizer se ele estava perplexo ou enojado.

– Difícil dizer… Não se acorda um dia e se descobre que é gay. Acontece aos poucos.

Okay, Pedro estava oficialmente se borrando.

– Mais de um ano?

– Sim.

– Mais de dois?

– Não.

– Já beijou algum homem?

– Vários. – Pedro estava ficando nervoso com aquele interrogatório. Pedro detestava interrogatórios, eles o faziam sentir-se culpado.

– Quando nós estávamos bêbados e nos beijamos significou algo para você?

A pergunta o pegou de surpresa. O assunto nunca havia sido mencionado, e Pedro realmente acreditava que o amigo não se lembrava. E perguntar isso, assim, sem preparar o terreno, parecia quase uma heresia. Mas Pedro não costumava mentir.

– Sim. Mas não mais.

Gustavo, então, ficou em silêncio por longos segundos.

– Cara… Da próxima vez que eu te chamar de bicha, vai ser verdade! – disse, sorrindo.

É, talvez ser gay não seja tão mal assim, Pedro pensou. Era um pensamento piegas e gay, mas que fosse. Pedro era homossexual mesmo, tinha autorização até para desmunhecar.



Pedro (4)
janeiro 15, 2008, 10:51 pm
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É, Gustavo não lembrara no dia seguinte. Nem na semana seguinte, ou no semestre seguinte, e Pedro resolvera deixar aquela história para trás. Ter a amizade de Gustavo era bem melhor que arriscar e não ter nada, certo? Uma opção covarde, decerto, mas Pedro nunca dissera que era um poço de coragem.

Um problema a menos para riscar da lista… Pedro gostava quando as coisas simplificavam. A situação ficara ainda melhor quando, um mês depois do beijo, ele descobrira que Gabriela era bissexual.

– O quê? Você é bissexual?

– Aham.

– De verdade?

– Aham.

– Quando passa uma menina tu olhas os dotes traseiros e dianteiros?

– Aham.

– Tu ficas com meninas?

– Aham.

– E ficou com Gustavo?

– Aham.

– E ele sabe que tu é bi?

– Aham.

– E tu tens amigos bi e gays e coisa e tal?

– Aham.

– Nossa.

Descobriu em Gabriela uma pessoa em quem confiar, mesmo depois que ela e Gustavo se afastaram. Uma noite, depois de uma sorvetada com os amigos, contara para a garota que era gay. E a resposta que ouvira fora “legal”. Era a primeira vez que Pedro se sentia verdadeiramente acolhido. Ele não sabia, mas sua iniciação no submundo gay começava ali.

Cabelos multicoloridos, roupas que ele só vira em revistas, travestis, transexuais, calças de couro, bissexuais, homossexuais, heterossexuais, flertes descarados, casais, de tudo um pouco havia naquela salada. Fez muitas amizades naquelas primeiras semanas. Era estranhamente confortável conversar com meninos sobre meninos e meninas sobre meninas de uma maneira natural.

A mãe começou a reclamar que ele nunca parava em casa. Continuava com ótimas notas na faculdade, mas Gustavo e boa parte do grupo antigo fora um tanto que deixado de lado. Pedro sabia que Gustavo sentia sua falta, e não era sempre que conseguia conciliar saídas com os dois grupos de amigos. Mas Pedro necessitava distância para superar tudo aquilo.

[continua…]



Pedro (3)
janeiro 6, 2008, 12:26 am
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Foi assim, de repente, que Pedro estava beijando Gustavo. Eles haviam dado uma volta depois da contagem com o grupo, mas Gustavo estava tão bêbado que o amigo achara melhor que os pais não vissem isso. Então, Pedro o convidou para dormir na sua casa, já que os pais dele estariam fora da cidade por uma semana.

Sendo o amigo menos alcoolizado, Pedro tirou o sapato, as meias e o cinto de Gustavo. Estava prestes a deixar o amigo esparramado ali mesmo no sofá quando o ouviu pedir um copo d’água. Em algum momento entre receber o copo vazio e ajeitar as almofadas o beijo começara.

E nem tente perguntar a Pedro quem começou; ele honestamente não sabe. A única coisa que conseguia perceber naquele momento era que estava ficando excitado. Não que isso significasse que ele fosse tentar algo mais, veja bem: Pedro é uma virgem que não quer ter sua primeira transa com um homem bêbado.

Tão inesperadamente como havia começado, o beijo acabou; Gustavo interrompeu-o e começou a dormir, sem mais nem menos. Confuso e ainda sob a influência do álcool, o sol nascer foi a última coisa que viu antes de desmaiar na própria cama.

Acordou com uma bruta ressaca e a boca seca. De olhos semi-cerrados, foi à cozinha e bebeu o resto de suco de laranja que havia. A noite anterior só lhe voltou a memória quando passou pela segunda vez pela sala e viu Gustavo dormindo com a boca meio aberta.

Esse negócio de ser gay estava ficando complicado demais para Pedro. Gostar de meninos, gostar de Gustavo, ter que dizer a todos que jogava no outro time e beijar o melhor amigo era informação demais. Talvez Pedro devesse esquecer a viadagem e tentar ter uma vida normal.

[continua…]

 

 



Pedro (2)
janeiro 3, 2008, 5:02 pm
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Noite da virada de ano. E, o mais importante, Pedro não era mais um calouro. Nada de maus-tratos, de trotes, de apostas, de pegadinhas. O primeiro período havia acabado. Naquele instante, faltavam 15 minutos para meia noite e Pedro, Gustavo e um grupo de amigos e amigas andavam pelas ruas da cidade, levemente alcoolizados.

– Vamos, senão a gente não chega a tempo!

Pedro estava contente. Conseguira passar aquele período inteiro sem que ninguém descobrisse que ele era uma frutinha. O mais novo problema de Pedro é que ele estava também o período inteiro sem pegar ninguém, porque um dos problemas de Pedro é que ele é tão enrustido que não conhece nenhum gay. E, se Pedro não conhece gays ou se assume como gay, como é que ele imagina que poderá ficar com alguém?

– Dez minutos! – Gabriela gritou, agarrada à mais nova paixão, Gustavo. O grupo chegou à casa de Pedro, abriu as champagnes na geladeira, encheu as taças e ali ficou, na cozinha mesmo, à espera.

Se Pedro fosse alguém corrompido, ele teria aproveitado que Gustavo estava mais que levemente alcoolizado para tentar algo quando todos fossem dormir. Mas Pedro é uma bichinha do bem. E covarde demais para isso.

– Cinco minutos! – Gustavo gritou. Eles estavam ficando ansiosos. A espera pelo ano que vem, cheio de promessas e esperanças, já se prolongava demais. O olhar de Pedro passou pelo peitoral e pelo tórax de Gustavo.

– 10, 9, 8, 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1! – Todos contaram em coro enquanto Gabriela abria a última taça de champagne. – Feliz… Ano… Novo! – gritaram juntos.

Os fogos estavam excepcionalmente coloridos naquela virada, e até mesmo um em formato de dragão fora lançado nas proximidades.

O que Pedro não sabia é que algo prestes a acontecer iria mudar sua vida.