Delírios, Reflexões e Ilusões Verborrágicas


A Moment to Remember
fevereiro 18, 2008, 6:14 pm
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Engraçado como as coisas são. Como muitos já sabem, em alguns dias irei me mudar para Brasília. Nada mais lógico, portanto, que pegar de volta as últimas coisas que emprestei.

A primeira dessas visitas “vou passar aí pra te ver, e tu aproveita e me devolve (insira objeto) que te emprestei” com certeza foi algo eu possa chamar de memorável.

Eu e a tal amiga, que de agora em diante chamarei de X, estávamos sozinhas no apartamento dela. Depois de uns bons minutos procurando meu CD, ela havia achado a capa e a contra-capa. Um “ótimo progresso”, nas palavras dela: faltava apenas o CD.

Devo ressaltar que os CDs dela e os do pai são guardados juntos, em uma desorganização tão grande que estávamos abrindo capa por capa, na esperança de encontrar o meu.

Foi então que X fez o tão infeliz comentário: “não seria super engraçado se eu encontrasse um CD pornô escondido aqui nos CDs do meu pai?

Dito e feito. Escondido em uma capa de trabalho, o dito cujo. Duas mulheres de biquíni em posições eróticas na capa. Resolvemos, é claro, dar uma espiadinha. Não estávamos realmente acreditando que aquele CD estava ali, exposto a qualquer um.

Bastaram alguns segundos para desligarmos o DVD player (que, bom ressaltar, foi muito complicado de fazer funcionar) e nos arrependermos de termos assistido, obviamente. Aquele era um pornô com travestis.

 

 



Suicide notes
fevereiro 6, 2008, 3:46 pm
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Suspirei e traguei mais uma vez meu Carlson de menta, fechando os olhos ao sentir a fumaça invadir meus pulmões. A nicotina era bem vinda. O vento frio em meu rosto me trazia à realidade em cada segundo, apesar do cuidado que tivera em me agasalhar. Lembro-me bem: usava luvas e calças pretas, um sobretudo bege, sapatos sociais, e cachecol, tudo de ótima qualidade.

Olhei para baixo, e os 59 andares abaixo de mim me deram vertigens. Desde criança detestava altura. Parecia-me sempre que estava prestes a cair. Traguei o cigarro outra vez, tentando superar o medo. Talvez eu devesse descer do peitoral. Talvez não fosse a hora certa.

Não, não, eu não daria para trás. Havia esperado demais e planejado tudo de maneira minuciosa e impecável. Passara tudo para o nome daqueles que me eram queridos, redigira o testamento, vestira aquela roupa bonita e comprado minha marca de cigarros favorita.

Meu pai havia trabalhado naquele edifício muitos anos antes… Gostava de lembrar-me dele naqueles dias; os primeiros fios grisalhos, os óculos para vista cansada e a risada profunda e contagiante. Em memória àquela época genuinamente feliz eu escolhera o local. Sorri involuntariamente.

Como alguém poderia viver momentos tão harmoniosos e outros tão desesperadores? Ter um gostinho de felicidade não me servira para nada, se não para tornar meu sofrimento ainda mais dolorido.

Acendi mais um cigarro e segurei as lágrimas que ameaçavam sair. Sabia que se começasse a chorar acabaria por afundar mais uma vez em minha própria dor e voltaria atrás. O sol nascia, um espetáculo vermelho sob os arranha-céus. Ou eu fazia aquilo nos próximos minutos ou teria que ir trabalhar.