Delírios, Reflexões e Ilusões Verborrágicas


Corvettes beges e amizades.
fevereiro 16, 2009, 10:05 pm
Filed under: Contos, Delírios, Narrativa

Ele não sabia porque, mas nunca havia conseguido criar raízes. Não era apegado à família, à cidade natal, conseguia deixar amigos para fazer novos, nunca chorava em despedidas. A grama sempre era mais verde na próxima cidade, estado, país, namorada, emprego.

Só mantinha uma amizade verdadeira e constante, um amigo de infância. O único motivo pelo qual voltava a sua cidade natal a cada dois anos, a única ligação que sempre fazia nos domingos a noite. Só possuia um bem do qual não abria mão, seu corvette bege, que lavava e lustrava todo domingo de manhã.

Aprendera a não fazer despedidas, a terminar namoros e nunca prometer “para sempre”. Era um homem “livre”, o que quer que aquilo significasse. Era um homem solitário. Fumava, adorava dirigir e tinha 5 óculos escuros. Cada vez fazia menos amigos, mas isso provavelmente se devia à dificuldade natural de sincronizar vidas que viveram coisas demais separadamente.

Parecia ontem que ele deixara os amigos de infância para fazer faculdade e os amigos de faculdade para aceitar um trabalho no exterior. Tinha os olhos cheios de culpa, e a boca cheia de promessas que ele sabia no fundo que não iria manter. Foi na segunda despedida que prometeu a si mesmo nunca mais ter amigos de verdade. Dóia demais. Cada amigo deixava uma ausência diferente, e ele já sentia falta suficiente dos que perdera para se dar ao trabalho de fazer outros.

Era senhor de si, porque não sabia mais se entregar.

Maíra Carvalho

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