Delírios, Reflexões e Ilusões Verborrágicas


carta sem remetente
maio 26, 2009, 6:43 pm
Filed under: Uncategorized | Tags: , , , , , , , ,

IV

Quanto teu pai e tua mãe morreram juntos, num acidente de carro, que te perdeste do mundo. Lembro bem quão devastada ficou tua irmã; nós éramos rapazes feitos, ela apenas uma moça preparando sua primeira exposição. Perdeu sete quilos e quase entrou em depressão profunda, me lembro bem.

Tu não. Eras uma fortaleza, impávido e impassível. Reconheceste os corpos e cuidaste do testamento enquanto teus tios organizavam o enterro e velavam os corpos. Sempre gostei de observar teus olhos, e me recordo que naquela época eles tornaram-se duros. Quaisquer reminiscências de tua infância se foram quando jogaram a primeira pá de terra por cima de teus progenitores.

Nesta época percebi que eras maior que a vida, que sobreviveria a muito mais que a maior parte das pessoas. Ter tua amizade sempre constituiu um esforço para mim, não sei se já te disse isso. Naqueles dias julguei ter te perdido eu também para essa dialética interna que raramente alcança a luz do dia. Por vezes penso que isso realmente aconteceu.

Tu te voltas mais para dentro a cada dia, e não sei mais o que faço. Tenho medo do dia que olharei para ti e não terei recíproca – serás um estranho, e olharei eu também para ti e meu olhar te atravessará. Temo a chegada deste dia desde que te conheci, para falar a verdade.



carta sem remetente
maio 22, 2009, 11:25 pm
Filed under: Uncategorized | Tags: , , , , , ,

III

Tu a beija e tu não amas, mas ela não sabe disso. Elas nunca o sabem, porque não conseguem perceber o que há por trás de teus gestos. Elas passam por tua cama e não te tocam; tuas defesas são numerosas demais. Eu, pelo menos, não lembro de nenhuma mais significativa em todos estes anos.

Eu apenas observo o ir e vir, alvo de ciúmes de quase todas. Elas almejam meu lugar na tua vida, sentem-se enciumadas e deslocadas; por isso fracassam, creio eu. Tu não facilitas: essa tua enorme dificuldade de abrir espaço e deixar alguém entrar na tua vida sempre me preocupou.

Já dormi com algumas delas, para te dizer a verdade. Já noivei uma delas. Por vezes penso que ficarei sempre com as tuas sobras – admito, és muito mais interessante e fascinante que eu. Exerce sobre aqueles ao teu redor uma atração estranha, que não sei bem identificar. É inevitável, e ainda não entendo o segredo desse teu charme do qual eu já fui vítima. Éramos crianças, lembro bem, quando te vi pela primeira vez no banquinho da escola. Foste uma criança linda, já te disse isso?

Te vejo segurar a mão dela entre as tuas sem dizer nada. Sempre me pergunto como não percebem. Sorrio para ela, embora mal saiba seu nome; sempre fui muito simpático a todas. Esta também passará. Eu, pelo menos, não lembro de nenhuma que tenha ficado em tua memória poética.



carta sem remetente

II

Tu sentes que não pertences, porque tu olhas as pessoas e te sentes um estrangeiro. Sempre foi assim. Nunca conseguiste integrar-te de verdade; pelo menos, desde os muitos anos que te conheço. Uma situação meio kafkiana, até, de se dividir entre querer escapar do quotidiano árido e da noção que nunca estiveste muito inserido nele. Não que eu saiba muito de Kafka, claro, longe de mim querer afirmar isso; mas acho que tenho uma pitada de razão. Mesmo comigo, em todo esse tempo – acho que sou o mais próximo que já chegaste de verdadeiras relações humanas.

Gosto muito de ti, sabe, mas não te entendo na maior parte do tempo. Talvez seja isso que esteja faltando: alguém que te compreenda. Tua família te vê como um inútil revolucionário; teus colegas, como um introspectivo excêntrico; teus amores vem e vão com a brisa, nunca deixando muitas marcas – nem em ti nem em mim. Não sei se percebeste na época, mas já tive uma queda por ti. Faz muitos anos, claro, mas numa noite fria que saíamos juntos quase me declarei.

Não acho que eu o teria feito em outras cirscuntâncias, veja bem. Coragem e determinação nunca foram o meu forte. A hipótese é mais confortável, mais agradável, dá mais asas à imaginação que a dura certeza, inflexível em suas consequências e minúcias. Ainda assim, aquela noite me vem a mente e me pergunto se teria dado certo entre nós. Provavelmente não. Esses teus olhos grandes, grandes e expressivos, olham ao redor e não encontram recíproca. Sempre te sentiste um estranho. Pelo menos, desde os muitos anos que te conheço.



carta sem remetente
maio 15, 2009, 9:06 pm
Filed under: Delírios, Surtos, Trechos | Tags: , , , ,

I

Deves estar cansado dessa calma e dessa escravidão; pelo menos, é o que penso eu. Não sabes de onde vem essa paz interior, que gostarias por vezes que se rompesse e deixasse transbordar algum sentimento intenso e irascível. Nem eu o sei como arranjaste essa serenidade budista tão repentinamente. Agora estás preso a ela, e não sabes livrar-te dessas amarras.

Contam-me que te sentes cada vez mais preso, atado, de movimentos cada vez mais limitados. Não sei como te consolar, o que dizer a alguém que a cada dia se sente mais tolhido por algo que não compreende. Às vezes penso que essa tua serenidade não é calma – é desespero, a agonia de quem se perde aos poucos. Eles te olham e o olhar deles te atravessa, porque eles não param para te ver.

Sonhas sonhos apocalípticos e surrealistas que ninguém entende. Salvador Dalí te invejaria; é uma pena que não possua a capacidade de organizá-los e colocá-los na tela como tua irmã. Tua inquietação atrás dessa calmaria me é patente, mas eles olham e não te compreendem. Será que eu te vejo? Meu ritmo ainda acompanha o teu?

Todo esse teu combustível me parece infinito, e és maior que a vida, honestamente. Eles não percebem, mas chegarás mais longe que qualquer um dos teus amigos, talvez até mesmo de mim. Eles te encaixam em categorias, em quadradinhos, e nada disso importa. Deves estar cansado dessa vida e dessas companhias; pelo menos, é o que penso eu.



300.
maio 12, 2009, 10:36 pm
Filed under: Uncategorized

Não é amor, e nunca o foi. Foi apenas uma ilusão passageira, algo que foi tão rapidamente quanto se instalou. Não pode ser amor. Não pode, se não me ouves e não abaixa as defesas para que eu possa entrar.  Não é, se ainda me relaciono com outras pessoas e tu nem pareces notar. Não será, se continuar assim, porque não nasci para estar à espera de algo ou alguém.

O que me importa se parecia ser amor nas duas primeiras semanas, se depois disso estás indisponível?



296.
maio 10, 2009, 12:50 pm
Filed under: Uncategorized

O silêncio por trás das tuas palavras me surpreende com frequência. Os breves segundos entre uma frase e outra dizem mais que imaginas. Achas que não percebo, mas estou mais que ciente.



repetição
maio 6, 2009, 10:44 pm
Filed under: Delírios, poesia | Tags: , , , ,

Minha poesia é repetitiva.
Só sei escrever versos
para ti,
e somente para ti.

Um dia não tu serás mais assunto,
estou confiante.
Um dia não importarás mais.

Um dia, quem sabe um dia…
Serás uma doce lembrança,
e não despertarás mais esta amargura.
Estarás no passado;
um passado esquecido,
desimportante.

Sim, um dia…