Delírios, Reflexões e Ilusões Verborrágicas


carta sem remetente

II

Tu sentes que não pertences, porque tu olhas as pessoas e te sentes um estrangeiro. Sempre foi assim. Nunca conseguiste integrar-te de verdade; pelo menos, desde os muitos anos que te conheço. Uma situação meio kafkiana, até, de se dividir entre querer escapar do quotidiano árido e da noção que nunca estiveste muito inserido nele. Não que eu saiba muito de Kafka, claro, longe de mim querer afirmar isso; mas acho que tenho uma pitada de razão. Mesmo comigo, em todo esse tempo – acho que sou o mais próximo que já chegaste de verdadeiras relações humanas.

Gosto muito de ti, sabe, mas não te entendo na maior parte do tempo. Talvez seja isso que esteja faltando: alguém que te compreenda. Tua família te vê como um inútil revolucionário; teus colegas, como um introspectivo excêntrico; teus amores vem e vão com a brisa, nunca deixando muitas marcas – nem em ti nem em mim. Não sei se percebeste na época, mas já tive uma queda por ti. Faz muitos anos, claro, mas numa noite fria que saíamos juntos quase me declarei.

Não acho que eu o teria feito em outras cirscuntâncias, veja bem. Coragem e determinação nunca foram o meu forte. A hipótese é mais confortável, mais agradável, dá mais asas à imaginação que a dura certeza, inflexível em suas consequências e minúcias. Ainda assim, aquela noite me vem a mente e me pergunto se teria dado certo entre nós. Provavelmente não. Esses teus olhos grandes, grandes e expressivos, olham ao redor e não encontram recíproca. Sempre te sentiste um estranho. Pelo menos, desde os muitos anos que te conheço.

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5 Comentários so far
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Se declarar é realmente algo difícil… antes de dizer, pensamos mil e uma coisas. Se vai dar certo ou não, se combina ou não, se será feliz ou não… ;-;

Comentário por Luma

Já estou cansada de dizer que você escreve bem u_u
Só mais uma vez, você escreve muito bem e, amei essa parte ” Tua família te vê como um inútil revolucionário; teus colegas, como um introspectivo excêntrico; teus amores vem e vão com a brisa, nunca deixando muitas marcas” *—*

Comentário por Briena

Excelente! Simples, objetivo e de uma qualidade ímpar

Parabéns Maíra.

Comentário por Michael

Gostei do texto (pra variar). Gosto de todas as formas que você escreve ^^
Agora… devo confessar que sempre fico perguntando o quanto seus textos tem de autobiografico? Ou no mínimo, quais são as motivações de cada um deles…
Bjos s2

Comentário por fran

Bom, tem uma amiga minha que também me pergunta muito isso. Devo dizer que prefiro guardar pra mim o quanto dá de mim nos meus textos – e que muitas vezes eu mesma não o sei.

Comentário por Maíra




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