Delírios, Reflexões e Ilusões Verborrágicas


279.
maio 5, 2009, 11:32 am
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Ainda pertenço a ti, e creio que estás bem ciente disso. Esse teu jeito de ser condescendente, de me olhar ternamente, é porque sabes que não pertenço a mim mesma. Não posso fazer nada quanto a isso, nem tu. Só podemos continuar como se nenhum dos dois tivesse conhecimento disso.



Corvettes beges e amizades.
fevereiro 16, 2009, 10:05 pm
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Ele não sabia porque, mas nunca havia conseguido criar raízes. Não era apegado à família, à cidade natal, conseguia deixar amigos para fazer novos, nunca chorava em despedidas. A grama sempre era mais verde na próxima cidade, estado, país, namorada, emprego.

Só mantinha uma amizade verdadeira e constante, um amigo de infância. O único motivo pelo qual voltava a sua cidade natal a cada dois anos, a única ligação que sempre fazia nos domingos a noite. Só possuia um bem do qual não abria mão, seu corvette bege, que lavava e lustrava todo domingo de manhã.

Aprendera a não fazer despedidas, a terminar namoros e nunca prometer “para sempre”. Era um homem “livre”, o que quer que aquilo significasse. Era um homem solitário. Fumava, adorava dirigir e tinha 5 óculos escuros. Cada vez fazia menos amigos, mas isso provavelmente se devia à dificuldade natural de sincronizar vidas que viveram coisas demais separadamente.

Parecia ontem que ele deixara os amigos de infância para fazer faculdade e os amigos de faculdade para aceitar um trabalho no exterior. Tinha os olhos cheios de culpa, e a boca cheia de promessas que ele sabia no fundo que não iria manter. Foi na segunda despedida que prometeu a si mesmo nunca mais ter amigos de verdade. Dóia demais. Cada amigo deixava uma ausência diferente, e ele já sentia falta suficiente dos que perdera para se dar ao trabalho de fazer outros.

Era senhor de si, porque não sabia mais se entregar.

Maíra Carvalho



E aí?
julho 5, 2008, 9:00 pm
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– Tá afim?

– Super.

– Mesmo? Achei que fosse só uma paixonite.

– Desde a primeira vez que bati os olhos, fiquei afim. Agora é quase uma obsessão.

– Sério?

– Não, brincadeira. Foi quando eu percebi que aquela pessoa era uma bonita por dentro e por fora.

– Nossa, que bonito!

– Foi natural.

– Será que é amor?

– Não sei.

– Parece amor, teus olhos tão brilhando.

– Hmmm. Talvez.

– Queria te perguntar uma coisa…

– O quê?

– Quem é essa pessoa?

– Você não quereria saber.

– Fala!

– Você.



Pedro (5)
janeiro 17, 2008, 10:15 pm
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– Gustavo… – Pedro falou, a voz baixa e segura.

– Fala. – O amigo respondeu distraidamente enquanto estudava.

– Eu sou gay.

– Isso é coisa séria demais pra se brincar. – Gustavo parecia levemente irritado, mas não parou de ler.

– Não estou brincando. – Pedro conseguia sentir as gotas de suor descendo pela sua nuca, e isso com certeza não o deixava mais confortável.

– Desde quando? – Gustavo fechou o livro e olhou nos olhos do melhor amigo com tal intensidade que era difícil dizer se ele estava perplexo ou enojado.

– Difícil dizer… Não se acorda um dia e se descobre que é gay. Acontece aos poucos.

Okay, Pedro estava oficialmente se borrando.

– Mais de um ano?

– Sim.

– Mais de dois?

– Não.

– Já beijou algum homem?

– Vários. – Pedro estava ficando nervoso com aquele interrogatório. Pedro detestava interrogatórios, eles o faziam sentir-se culpado.

– Quando nós estávamos bêbados e nos beijamos significou algo para você?

A pergunta o pegou de surpresa. O assunto nunca havia sido mencionado, e Pedro realmente acreditava que o amigo não se lembrava. E perguntar isso, assim, sem preparar o terreno, parecia quase uma heresia. Mas Pedro não costumava mentir.

– Sim. Mas não mais.

Gustavo, então, ficou em silêncio por longos segundos.

– Cara… Da próxima vez que eu te chamar de bicha, vai ser verdade! – disse, sorrindo.

É, talvez ser gay não seja tão mal assim, Pedro pensou. Era um pensamento piegas e gay, mas que fosse. Pedro era homossexual mesmo, tinha autorização até para desmunhecar.



Pedro (4)
janeiro 15, 2008, 10:51 pm
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É, Gustavo não lembrara no dia seguinte. Nem na semana seguinte, ou no semestre seguinte, e Pedro resolvera deixar aquela história para trás. Ter a amizade de Gustavo era bem melhor que arriscar e não ter nada, certo? Uma opção covarde, decerto, mas Pedro nunca dissera que era um poço de coragem.

Um problema a menos para riscar da lista… Pedro gostava quando as coisas simplificavam. A situação ficara ainda melhor quando, um mês depois do beijo, ele descobrira que Gabriela era bissexual.

– O quê? Você é bissexual?

– Aham.

– De verdade?

– Aham.

– Quando passa uma menina tu olhas os dotes traseiros e dianteiros?

– Aham.

– Tu ficas com meninas?

– Aham.

– E ficou com Gustavo?

– Aham.

– E ele sabe que tu é bi?

– Aham.

– E tu tens amigos bi e gays e coisa e tal?

– Aham.

– Nossa.

Descobriu em Gabriela uma pessoa em quem confiar, mesmo depois que ela e Gustavo se afastaram. Uma noite, depois de uma sorvetada com os amigos, contara para a garota que era gay. E a resposta que ouvira fora “legal”. Era a primeira vez que Pedro se sentia verdadeiramente acolhido. Ele não sabia, mas sua iniciação no submundo gay começava ali.

Cabelos multicoloridos, roupas que ele só vira em revistas, travestis, transexuais, calças de couro, bissexuais, homossexuais, heterossexuais, flertes descarados, casais, de tudo um pouco havia naquela salada. Fez muitas amizades naquelas primeiras semanas. Era estranhamente confortável conversar com meninos sobre meninos e meninas sobre meninas de uma maneira natural.

A mãe começou a reclamar que ele nunca parava em casa. Continuava com ótimas notas na faculdade, mas Gustavo e boa parte do grupo antigo fora um tanto que deixado de lado. Pedro sabia que Gustavo sentia sua falta, e não era sempre que conseguia conciliar saídas com os dois grupos de amigos. Mas Pedro necessitava distância para superar tudo aquilo.

[continua…]