Delírios, Reflexões e Ilusões Verborrágicas


Aeroporto
outubro 7, 2010, 11:36 pm
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II

Eu queria uma chance. Do quê, não sei. Mais uma tentativa, mais um começo. Começar é bem melhor do que continuar, com menos desapontos que terminar. Então começo e recomeço, nunca sabendo se estou mais perto ou mais longe de onde queria estar.

Tenho sede. Abro minha carteira preta – como minhas roupas – e vejo que não sobra muito nesse final de mês. Conto moedas e não tenho o suficiente. Olho o copo de cerveja, agora vazio, e percebo que não sinto nada. Olho ao redor; todos são tão diferentes e impassíveis quanto eu.

Eu queria uma chance. O que eu quero provar eu não sei, honestamente. Que eu sou grande, que eu sou infinita, que eu consigo cumprir os meus objetivos. Consigo? Não importa. Ninguém se importa, não é verdade? Procuro em meus bolsos por mais algumas moedas. Não as encontro.

Não me encontro. A cadeira é fria e o pensamento me incomoda, o que me faz levantar assim por instinto. Minha mala pesa, e não gosto desse nomadismo, desse limbo de não estar em lugar nenhum. Não gosto de estar onde estou, mas também não gosto de onde vim e não tenho tanto afeto para onde vou.

Nada me pertence. Sinto que eu poderia deixar a mala ali mesmo que não me faria falta, que são só roupas e sapatos e maquiagem. Talvez eu sentisse falta do meu caderno, me ocorre. Mas eu não me importo. Talvez esse seja meu problema. No fundo, eu não me importo.

Como uns amendoins mais por hábito que por qualquer outra coisa. Não tenho fome, nem vontade de comer. Mas o que custa comer alguns amendoins? Mastigo de maneira monótona. Uma tristeza me abate e eu não sei o porquê.

A vida às vezes te abate, me vejo pensar. Ou a gente mesmo se abate, sem querer querendo. Ainda assim, esse sentimento de não pertencimento não cessa. Não tem dado trégua faz alguns anos, e essa sensação de ser permanentemente estrangeira me cansa o espírito.



Aeroporto
outubro 4, 2010, 9:17 pm
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I
Finalmente o sol se pôs. Uma brisa boa começa a bater, e foi a primeira vez em muito tempo que eu vi o sol se pôr, vermelho e eterno. Será que a solidão só aumenta com o passar do tempo? Daqui a vinte, cinquenta anos, eu me sentirei mais ou menos aislada do que hoje em dia?

Eu penso nessas perguntas, olhando ao redor para tentar identificar traços de familiaridade em algum rosto, e me sinto inerte. Nenhum olhar meu é retribuído. Estão todos imersos em si mesmos, no ritmo frenético de cada um. Há dezenas de pessoas aqui e nenhuma me nota.

Não sei se eu queria ser notada, não sei se essas pessoas são interessantes, não sei se algum estranho me preencheria esse vazio. Há algo de estéril nessa burocracia e nessa vida que nunca para para respirar. Algo que não me pertence, por mais que eu compartilhe algo disso tudo.

Talvez eu não tenha sido moldada pra isso, mas faz diferença? Minha maior característica sempre foi ser assim, maleável, meio camaleão, meio artista. Não sou eu que me moldo, e sim os outros. Não sou eu que escrevo a minha história. Vou reagindo ao ambiente e de escolha em escolha vou andando.

A cada minuto que passa chega mais gente. Homens de terno, mulheres de vestido, pré-adolescentes gordinhos lambendo um sorvete de baunilha, uma senhora de blusa azul florida tomando um refrigerante, sozinha.

E eu, é claro, vestida toda de preto, com uma mala, sem ter para onde ir. Não há sensação pior do que essa, de estar na rua com uma mala sem poder parar para pensar. Olho o copo de cerveja na minha frente, quase vazio. Nada me toca. Nada faz muita diferença.



carta sem remetente

II

Tu sentes que não pertences, porque tu olhas as pessoas e te sentes um estrangeiro. Sempre foi assim. Nunca conseguiste integrar-te de verdade; pelo menos, desde os muitos anos que te conheço. Uma situação meio kafkiana, até, de se dividir entre querer escapar do quotidiano árido e da noção que nunca estiveste muito inserido nele. Não que eu saiba muito de Kafka, claro, longe de mim querer afirmar isso; mas acho que tenho uma pitada de razão. Mesmo comigo, em todo esse tempo – acho que sou o mais próximo que já chegaste de verdadeiras relações humanas.

Gosto muito de ti, sabe, mas não te entendo na maior parte do tempo. Talvez seja isso que esteja faltando: alguém que te compreenda. Tua família te vê como um inútil revolucionário; teus colegas, como um introspectivo excêntrico; teus amores vem e vão com a brisa, nunca deixando muitas marcas – nem em ti nem em mim. Não sei se percebeste na época, mas já tive uma queda por ti. Faz muitos anos, claro, mas numa noite fria que saíamos juntos quase me declarei.

Não acho que eu o teria feito em outras cirscuntâncias, veja bem. Coragem e determinação nunca foram o meu forte. A hipótese é mais confortável, mais agradável, dá mais asas à imaginação que a dura certeza, inflexível em suas consequências e minúcias. Ainda assim, aquela noite me vem a mente e me pergunto se teria dado certo entre nós. Provavelmente não. Esses teus olhos grandes, grandes e expressivos, olham ao redor e não encontram recíproca. Sempre te sentiste um estranho. Pelo menos, desde os muitos anos que te conheço.



Corvettes beges e amizades.
fevereiro 16, 2009, 10:05 pm
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Ele não sabia porque, mas nunca havia conseguido criar raízes. Não era apegado à família, à cidade natal, conseguia deixar amigos para fazer novos, nunca chorava em despedidas. A grama sempre era mais verde na próxima cidade, estado, país, namorada, emprego.

Só mantinha uma amizade verdadeira e constante, um amigo de infância. O único motivo pelo qual voltava a sua cidade natal a cada dois anos, a única ligação que sempre fazia nos domingos a noite. Só possuia um bem do qual não abria mão, seu corvette bege, que lavava e lustrava todo domingo de manhã.

Aprendera a não fazer despedidas, a terminar namoros e nunca prometer “para sempre”. Era um homem “livre”, o que quer que aquilo significasse. Era um homem solitário. Fumava, adorava dirigir e tinha 5 óculos escuros. Cada vez fazia menos amigos, mas isso provavelmente se devia à dificuldade natural de sincronizar vidas que viveram coisas demais separadamente.

Parecia ontem que ele deixara os amigos de infância para fazer faculdade e os amigos de faculdade para aceitar um trabalho no exterior. Tinha os olhos cheios de culpa, e a boca cheia de promessas que ele sabia no fundo que não iria manter. Foi na segunda despedida que prometeu a si mesmo nunca mais ter amigos de verdade. Dóia demais. Cada amigo deixava uma ausência diferente, e ele já sentia falta suficiente dos que perdera para se dar ao trabalho de fazer outros.

Era senhor de si, porque não sabia mais se entregar.

Maíra Carvalho



insônia
julho 21, 2008, 5:22 pm
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Meus fantasmas me possuem
e me embriagam nessa noite insone.

As lembranças do por-vir,
A pressão do que poderia ter sido:
Tudo isso caminha para minha ruína.

Desce quente pela minha garganta
a amargura de alguns pensamentos.
Algum dia serei metade do que me proponho a ser?
Passarei do esboço à arte-final?

Suspiro resignadamente e fecho os olhos.
Os caminhos que percorri nunca foram pré-traçados.
Minha vida? Uma licença poética.

Maíra Carvalho



Suicide notes
fevereiro 6, 2008, 3:46 pm
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Suspirei e traguei mais uma vez meu Carlson de menta, fechando os olhos ao sentir a fumaça invadir meus pulmões. A nicotina era bem vinda. O vento frio em meu rosto me trazia à realidade em cada segundo, apesar do cuidado que tivera em me agasalhar. Lembro-me bem: usava luvas e calças pretas, um sobretudo bege, sapatos sociais, e cachecol, tudo de ótima qualidade.

Olhei para baixo, e os 59 andares abaixo de mim me deram vertigens. Desde criança detestava altura. Parecia-me sempre que estava prestes a cair. Traguei o cigarro outra vez, tentando superar o medo. Talvez eu devesse descer do peitoral. Talvez não fosse a hora certa.

Não, não, eu não daria para trás. Havia esperado demais e planejado tudo de maneira minuciosa e impecável. Passara tudo para o nome daqueles que me eram queridos, redigira o testamento, vestira aquela roupa bonita e comprado minha marca de cigarros favorita.

Meu pai havia trabalhado naquele edifício muitos anos antes… Gostava de lembrar-me dele naqueles dias; os primeiros fios grisalhos, os óculos para vista cansada e a risada profunda e contagiante. Em memória àquela época genuinamente feliz eu escolhera o local. Sorri involuntariamente.

Como alguém poderia viver momentos tão harmoniosos e outros tão desesperadores? Ter um gostinho de felicidade não me servira para nada, se não para tornar meu sofrimento ainda mais dolorido.

Acendi mais um cigarro e segurei as lágrimas que ameaçavam sair. Sabia que se começasse a chorar acabaria por afundar mais uma vez em minha própria dor e voltaria atrás. O sol nascia, um espetáculo vermelho sob os arranha-céus. Ou eu fazia aquilo nos próximos minutos ou teria que ir trabalhar.



My my my, it’s a beautiful world…
janeiro 26, 2008, 4:18 pm
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Ele tinha muito na cabeça. Coisa demais. Desenhava, pintava, tocava violão, falava, filmava e escrevia, principalmente; estava sempre fazendo algo para expressar o que lhe passava pela cabeça. Não adiantava muito, para falar a verdade. Criava mais do que conseguia expressar.

Ele criava personagens que nunca usava em nenhuma histórias. Trechos e mais trechos, que normalmente não eram incorporados a nenhuma narrativa. Roteiros inteiros que nunca eram escritos ou filmados. Dramas que nunca eram levados ao público. A complexidade humana era grande demais para ele.

Desenhava, tentando captar a essência de algo que havia visto ou imaginado; às vezes conseguia, às vezes não. Filmava, tentando expressar pela sétima arte situações, personagens e emoções que sua mente criava; normalmente não conseguia. Escrevia abundantemente, e nunca era suficiente.

Nunca sabia se estava fazendo algo de qualidade. A linha que separava uma obra-prima de uma bela porcaria lhe era desconhecida. Ele continuava tentando, mesmo assim, desvendar a essência das coisas. O que fazia alguém ser cativante, o mistério do sorriso da namorada, o medo da morte e a dor da perda, da saudade e da despedida; tudo era campo de estudo. O brilho dos olhos de quem conquistava algo, a simplicidade de uma amizade sincera; o mundo era vasto demais.

Tinha consciência que, com o tempo, ele progredia. Ainda assim, as palavras que achavam para escrever nunca eram as exatas; a linha que desenhava nunca era a que queria traçar; a música que cantava nunca era expressava o que queria do jeito que ele queria. Mas ele não desanimava. Um dia conseguiria a história perfeita, o filme perfeito, o desenho perfeito.