Delírios, Reflexões e Ilusões Verborrágicas


carta sem remetente
maio 15, 2009, 9:06 pm
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I

Deves estar cansado dessa calma e dessa escravidão; pelo menos, é o que penso eu. Não sabes de onde vem essa paz interior, que gostarias por vezes que se rompesse e deixasse transbordar algum sentimento intenso e irascível. Nem eu o sei como arranjaste essa serenidade budista tão repentinamente. Agora estás preso a ela, e não sabes livrar-te dessas amarras.

Contam-me que te sentes cada vez mais preso, atado, de movimentos cada vez mais limitados. Não sei como te consolar, o que dizer a alguém que a cada dia se sente mais tolhido por algo que não compreende. Às vezes penso que essa tua serenidade não é calma – é desespero, a agonia de quem se perde aos poucos. Eles te olham e o olhar deles te atravessa, porque eles não param para te ver.

Sonhas sonhos apocalípticos e surrealistas que ninguém entende. Salvador Dalí te invejaria; é uma pena que não possua a capacidade de organizá-los e colocá-los na tela como tua irmã. Tua inquietação atrás dessa calmaria me é patente, mas eles olham e não te compreendem. Será que eu te vejo? Meu ritmo ainda acompanha o teu?

Todo esse teu combustível me parece infinito, e és maior que a vida, honestamente. Eles não percebem, mas chegarás mais longe que qualquer um dos teus amigos, talvez até mesmo de mim. Eles te encaixam em categorias, em quadradinhos, e nada disso importa. Deves estar cansado dessa vida e dessas companhias; pelo menos, é o que penso eu.



My my my, it’s a beautiful world…
janeiro 26, 2008, 4:18 pm
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Ele tinha muito na cabeça. Coisa demais. Desenhava, pintava, tocava violão, falava, filmava e escrevia, principalmente; estava sempre fazendo algo para expressar o que lhe passava pela cabeça. Não adiantava muito, para falar a verdade. Criava mais do que conseguia expressar.

Ele criava personagens que nunca usava em nenhuma histórias. Trechos e mais trechos, que normalmente não eram incorporados a nenhuma narrativa. Roteiros inteiros que nunca eram escritos ou filmados. Dramas que nunca eram levados ao público. A complexidade humana era grande demais para ele.

Desenhava, tentando captar a essência de algo que havia visto ou imaginado; às vezes conseguia, às vezes não. Filmava, tentando expressar pela sétima arte situações, personagens e emoções que sua mente criava; normalmente não conseguia. Escrevia abundantemente, e nunca era suficiente.

Nunca sabia se estava fazendo algo de qualidade. A linha que separava uma obra-prima de uma bela porcaria lhe era desconhecida. Ele continuava tentando, mesmo assim, desvendar a essência das coisas. O que fazia alguém ser cativante, o mistério do sorriso da namorada, o medo da morte e a dor da perda, da saudade e da despedida; tudo era campo de estudo. O brilho dos olhos de quem conquistava algo, a simplicidade de uma amizade sincera; o mundo era vasto demais.

Tinha consciência que, com o tempo, ele progredia. Ainda assim, as palavras que achavam para escrever nunca eram as exatas; a linha que desenhava nunca era a que queria traçar; a música que cantava nunca era expressava o que queria do jeito que ele queria. Mas ele não desanimava. Um dia conseguiria a história perfeita, o filme perfeito, o desenho perfeito.