Delírios, Reflexões e Ilusões Verborrágicas


Suicide notes
fevereiro 6, 2008, 3:46 pm
Filed under: Delírios, Narrativa, Surtos | Tags: , , , , ,

Suspirei e traguei mais uma vez meu Carlson de menta, fechando os olhos ao sentir a fumaça invadir meus pulmões. A nicotina era bem vinda. O vento frio em meu rosto me trazia à realidade em cada segundo, apesar do cuidado que tivera em me agasalhar. Lembro-me bem: usava luvas e calças pretas, um sobretudo bege, sapatos sociais, e cachecol, tudo de ótima qualidade.

Olhei para baixo, e os 59 andares abaixo de mim me deram vertigens. Desde criança detestava altura. Parecia-me sempre que estava prestes a cair. Traguei o cigarro outra vez, tentando superar o medo. Talvez eu devesse descer do peitoral. Talvez não fosse a hora certa.

Não, não, eu não daria para trás. Havia esperado demais e planejado tudo de maneira minuciosa e impecável. Passara tudo para o nome daqueles que me eram queridos, redigira o testamento, vestira aquela roupa bonita e comprado minha marca de cigarros favorita.

Meu pai havia trabalhado naquele edifício muitos anos antes… Gostava de lembrar-me dele naqueles dias; os primeiros fios grisalhos, os óculos para vista cansada e a risada profunda e contagiante. Em memória àquela época genuinamente feliz eu escolhera o local. Sorri involuntariamente.

Como alguém poderia viver momentos tão harmoniosos e outros tão desesperadores? Ter um gostinho de felicidade não me servira para nada, se não para tornar meu sofrimento ainda mais dolorido.

Acendi mais um cigarro e segurei as lágrimas que ameaçavam sair. Sabia que se começasse a chorar acabaria por afundar mais uma vez em minha própria dor e voltaria atrás. O sol nascia, um espetáculo vermelho sob os arranha-céus. Ou eu fazia aquilo nos próximos minutos ou teria que ir trabalhar.



Pedro (5)
janeiro 17, 2008, 10:15 pm
Filed under: Contos | Tags: , , ,

– Gustavo… – Pedro falou, a voz baixa e segura.

– Fala. – O amigo respondeu distraidamente enquanto estudava.

– Eu sou gay.

– Isso é coisa séria demais pra se brincar. – Gustavo parecia levemente irritado, mas não parou de ler.

– Não estou brincando. – Pedro conseguia sentir as gotas de suor descendo pela sua nuca, e isso com certeza não o deixava mais confortável.

– Desde quando? – Gustavo fechou o livro e olhou nos olhos do melhor amigo com tal intensidade que era difícil dizer se ele estava perplexo ou enojado.

– Difícil dizer… Não se acorda um dia e se descobre que é gay. Acontece aos poucos.

Okay, Pedro estava oficialmente se borrando.

– Mais de um ano?

– Sim.

– Mais de dois?

– Não.

– Já beijou algum homem?

– Vários. – Pedro estava ficando nervoso com aquele interrogatório. Pedro detestava interrogatórios, eles o faziam sentir-se culpado.

– Quando nós estávamos bêbados e nos beijamos significou algo para você?

A pergunta o pegou de surpresa. O assunto nunca havia sido mencionado, e Pedro realmente acreditava que o amigo não se lembrava. E perguntar isso, assim, sem preparar o terreno, parecia quase uma heresia. Mas Pedro não costumava mentir.

– Sim. Mas não mais.

Gustavo, então, ficou em silêncio por longos segundos.

– Cara… Da próxima vez que eu te chamar de bicha, vai ser verdade! – disse, sorrindo.

É, talvez ser gay não seja tão mal assim, Pedro pensou. Era um pensamento piegas e gay, mas que fosse. Pedro era homossexual mesmo, tinha autorização até para desmunhecar.



Pedro (3)
janeiro 6, 2008, 12:26 am
Filed under: Contos | Tags: , , , , ,

Foi assim, de repente, que Pedro estava beijando Gustavo. Eles haviam dado uma volta depois da contagem com o grupo, mas Gustavo estava tão bêbado que o amigo achara melhor que os pais não vissem isso. Então, Pedro o convidou para dormir na sua casa, já que os pais dele estariam fora da cidade por uma semana.

Sendo o amigo menos alcoolizado, Pedro tirou o sapato, as meias e o cinto de Gustavo. Estava prestes a deixar o amigo esparramado ali mesmo no sofá quando o ouviu pedir um copo d’água. Em algum momento entre receber o copo vazio e ajeitar as almofadas o beijo começara.

E nem tente perguntar a Pedro quem começou; ele honestamente não sabe. A única coisa que conseguia perceber naquele momento era que estava ficando excitado. Não que isso significasse que ele fosse tentar algo mais, veja bem: Pedro é uma virgem que não quer ter sua primeira transa com um homem bêbado.

Tão inesperadamente como havia começado, o beijo acabou; Gustavo interrompeu-o e começou a dormir, sem mais nem menos. Confuso e ainda sob a influência do álcool, o sol nascer foi a última coisa que viu antes de desmaiar na própria cama.

Acordou com uma bruta ressaca e a boca seca. De olhos semi-cerrados, foi à cozinha e bebeu o resto de suco de laranja que havia. A noite anterior só lhe voltou a memória quando passou pela segunda vez pela sala e viu Gustavo dormindo com a boca meio aberta.

Esse negócio de ser gay estava ficando complicado demais para Pedro. Gostar de meninos, gostar de Gustavo, ter que dizer a todos que jogava no outro time e beijar o melhor amigo era informação demais. Talvez Pedro devesse esquecer a viadagem e tentar ter uma vida normal.

[continua…]

 

 



Pedro
dezembro 9, 2007, 9:43 pm
Filed under: Contos | Tags: , , , , ,

Pedro era um bom rapaz: honesto, responsável, bom aluno da faculdade e esportista. Era bonito também, com os olhos azuis-piscina e o corpo bem torneado da natação. O problema de Pedro era um só: ele era gay.

– Bom dia, mãe. – disse, pegando um pedaço de torrada e sentando.

– Dia, querido. – ela respondeu, colocando a jarra de café na mesa.

E, é claro, seus pais não sabiam. Tudo era muito recente.

Bebeu o café de um gole, enfiou o resto de torrada na boca e saiu, o cabelo ainda despenteado. Estava atrasado para a aula de Direito Constitucional, o que lhe lembrava de mais um problema. Você já ouviu falar de muitos advogados procurados e badalados que fossem gays? Pedro não.

– E aí? – Gustavo, seu melhor amigo, o encontrou na entrada do prédio e o cumprimentou sorrindo.

– E aí nada. E tu? – Pedro respondeu, com um tapinha nas costas do moreno.

– Nada também.

Ah, e Pedro acreditava estar apaixonado por Gustavo, que não dava nenhum sinal de jogar no outro time. Estava muito ferrado. Devia logo era cortar os pulsos e acabar com essa viadagem (com o perdão do trocadilho).

Os dois conseguiram entrar na sala para o primeiro período cinco segundos antes do professor entrar. Abriram os cadernos e, por duas horas, Pedro esqueceu os abacaxis que carregava.

O pior é que não adiantava nem discutir: ele era gay, gostava de meninos, era atraído e atraía meninos. Era um bicha, uma drag queen, uma boneca, uma menina, que fosse. Apenas e tão-somente por isso, ele iria bater de frente com tanta gente, sofrer tanto, ser ameaçado de ir para o inferno e tachado de “anormal”.

Talvez ele devesse se envolver com moda. Ou teatro.

[continua…]



Depois da Corrida (4)
dezembro 5, 2007, 4:30 pm
Filed under: Contos | Tags: , , ,

Depois da Corrida (4)

He wonders if he can take back some of his past

Tartaruga, no momento em que o Coelho era recolhido da sarjeta pelo filho, estava em um avião exclusivo para ela e sua banda. Era sua segunda turnê mundial. Já estivera em 15 clínicas de reabilitação, nenhuma por mais de 26 horas. Tivera 10 overdoses, duas brigas de faca, cortara os pulsos e lançara mais dois CDs. Era o epítome do punk na Floresta, com seu moicano e roupas rasgadas.

Não percebia que era apenas um boneco na mão da mídia. Não percebia que já havia perdido sua essência. Não percebia que, apesar das noitadas, dos shows e das drogas serem ofuscantes, não o satisfaziam. Estava cego.

Outras nove primaveras se passaram antes que os dois adversários se encontrassem. Foi um momento tenso. Coelho, já formado, saía do escritório de advocacia onde trabalhava e Tartaruga, completamente drogado, passava por ali, acompanhado por uma mulher de vida fácil.

O réptil reagiu encarando agressivamente seu Coelho. Foi ignorado; Coelho já encontrara a paz, não culpava Tartaruga ou mesmo sentia desejo de brigar. “Deus lhe abençoe, filho” foi tudo o que disse. “Deus lhe abençoe”.

É neste ponto que a lenda começa. Tartaruga, ao ouvir aquela voz calma e rouca, teria tido uma visão: uma luz ofuscante o envolvia, aquecendo-o e acalentando-o, e ouvira a voz de sua falecida mãe. Quando acordou, estava em uma UTI de alta tecnologia, com o antigo adversário a seu lado.

A vida da estrela de rock mudou para sempre depois do acontecimento. Largou as drogas, a prepotência e as relações superficiais e descartáveis. Retomou contato com o pai, já idoso e sozinho no mundo, e com os 2 irmãos. Criou uma ong para ajudar as famílias pobres da Floresta (ele mesmo já havia estado naquela situação), que ensinava profissões aos pais e custeava a faculdade dos filhos, baseado no histórico escolar.

E assim acaba a nossa história. Como qualquer outra, cheia de reviravoltas, descobertas, arrependimentos e amadurecimentos. Não direi que todos foram felizes para sempre, porque esta não é uma fábula com moral. É apenas um conto.

Maíra Carvalho, 05/12/07



Depois da Corrida (3)
outubro 21, 2007, 2:46 pm
Filed under: Contos | Tags: , , ,

Depois da Corrida (3)

There’s always hope

Quatro anos se passaram. Alguns animais haviam se mudado da Floresta, como o Texugo. Outros, como a Doninha, haviam prosperado e comprado a toca própria. A vegetação parecia mais vistosa, os animais, mais sábios, e as crianças, mais precoces.

Seu Coelho e Dona Coelha, depois de tanto sofrimento, estavam em um processo de redescoberta. Haviam se divorciado dois anos antes, quando a tolerância de Dona Coelha chegara ao limite. Mas, naquele momento, Coelho estava sóbrio. Um ano e meio atrás, abandonado pelo amor da sua vida, sem a companhia dos filhos e sem um tostão para comprar bebida, sua vida mudara.

Seu filho mais velho, que havia encontrado paz na religião e era pastor da Igreja Evangélica Batista Episcopal Romana Do Sétimo Dia da Criação, encontrara-o sentado na calçada, com uma garrafa de uísque vazia ao seu lado e lágrimas no rosto. Sensibilizado, acolheu-o para a igreja, lhe dera um banho, comida e roupas limpas.

Fora o início de longos meses de cura. Crises de abstinência, recaídas, orações, livros, palestras, hobbies, os nove passos… Seu Coelho agora estava terminando o processo, pedindo perdão a todos que havia magoado. Sóbrio e esperançoso, trabalhava como eletricista e fazia curso noturno de Direito. Ainda amava Dona Coelha.

[continua…]



Depois da Corrida (2)
outubro 13, 2007, 9:08 pm
Filed under: Contos | Tags: , , , , ,

Depois da Corrida (2)

The Rise of The Turtle

Dizem as más línguas que a Tartaruga, após ganhar a fatídica corrida, entrou de cabeça no mundo de sexo, drogas e rock’n’roll. As boas línguas a defendem argumentando que foi um momento de novas experiências, de muitas tentações, nada mais normal que perder um pouco o foco.

A Tartaruga era um bicho solteiro, jovem, recém-saído da faculdade. Inexperiente, nunca havia bebido, usado drogas ou mesmo se relacionado com outras tartarugas sem que fosse algo sério: presa fácil do brilho do estrelato.

A atenção da mídia, as fãs, o prestígio e tudo mais que acompanhou sua fama meteórica seriam sua perdição. Logo começava a circular entre as estrelas; simpático e honesto, conquistou muitos afetos. As cartas de fãs começaram a lotar sua caixa postal e ele fez sua primeira sessão de fotos para uma revista adolescente no mesmo mês.

Em três meses, havia se casado com uma cantora pop, viciado-se em maconha, feito dois clipes, dez propagandas e começado sua própria banda de rock. Com o cachê milionário comprara uma casa boa para a mãe e uma mansão para si, e vivia confortavelmente. Começaram a correr boatos suspeitos nos quartos da Mansão Turtle.

No mês seguinte, estava separado e em turnê. Um complexo de divindade nascia: brigara com a família, com o empresário, já cheirava cocaína antes dos shows e tivera sua primeira DST. Suas apresentações tornavam-se místicas e disputadas, sua música expressiva e muita bateria para acompanhar.

A variedade de drogas consumidas e a dependência aumentavam exponencialmente, assim como o cachê de shows e a venda de CDs. Tartaruga vivia o sonho americano: fama, mulheres, dinheiro e rock’n’roll. O brilho daquele estilo de vida parecia eterno.

[continua…]