Delírios, Reflexões e Ilusões Verborrágicas


carta sem remetente
maio 26, 2009, 6:43 pm
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IV

Quanto teu pai e tua mãe morreram juntos, num acidente de carro, que te perdeste do mundo. Lembro bem quão devastada ficou tua irmã; nós éramos rapazes feitos, ela apenas uma moça preparando sua primeira exposição. Perdeu sete quilos e quase entrou em depressão profunda, me lembro bem.

Tu não. Eras uma fortaleza, impávido e impassível. Reconheceste os corpos e cuidaste do testamento enquanto teus tios organizavam o enterro e velavam os corpos. Sempre gostei de observar teus olhos, e me recordo que naquela época eles tornaram-se duros. Quaisquer reminiscências de tua infância se foram quando jogaram a primeira pá de terra por cima de teus progenitores.

Nesta época percebi que eras maior que a vida, que sobreviveria a muito mais que a maior parte das pessoas. Ter tua amizade sempre constituiu um esforço para mim, não sei se já te disse isso. Naqueles dias julguei ter te perdido eu também para essa dialética interna que raramente alcança a luz do dia. Por vezes penso que isso realmente aconteceu.

Tu te voltas mais para dentro a cada dia, e não sei mais o que faço. Tenho medo do dia que olharei para ti e não terei recíproca – serás um estranho, e olharei eu também para ti e meu olhar te atravessará. Temo a chegada deste dia desde que te conheci, para falar a verdade.

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277.
maio 5, 2009, 11:39 am
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Distancio-me de ti e nem percebes, imerso que estás em teus próprios problemas e tua própria dor. Distancio-me de ti cada vez mais, porque não tenho mais condições de lidar com os teus problemas. Peço desculpas, mas eu estou à toda velocidade e não posso parar. Tenho minhas próprias confusões a resolver. Distancio-me de ti e nem percebes, imerso que estás em teus próprios problemas e tua própria dor.



dor
agosto 4, 2008, 1:48 am
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Pergunto-me se me amarás eternamente.

Quando entre neste carro e pisei no acelerador, demorei demais a notar quão rápido estava e quantos haviam ficado para trás. Talvez esse seja o fardo que eu esteja condenada a carregar. Talvez essa história de karma tenha algum sentido.

Love them and leave them. É a verdade da qual não posso escapar. Estou destinada a isso. Olho para o horizonte à minha frente e sinto-me só. Não sei mais desacelerar, impedir o que comecei, voltar atrás. O que está feito está feito.

Escolhi essa vida, e arcarei com as consequências o mais graciosamente que puder. Estarei sempre dividida, sempre com saudades, sempre com lembranças. Sempre estrangeira. Não tenho tempo de colher o que plantei; a grama ali adiante sempre parece mais verde.

Uma vida buscando algo que não sei bem o que é. Talvez nunca chegue a saber. Não me amarás eternamente: esquecerá-te de mim, eu bem sei. A mim só me restará a estrada. A expectativa pela próxima parada também fanecerá.

Maíra Carvalho