Delírios, Reflexões e Ilusões Verborrágicas


carta sem remetente
maio 22, 2009, 11:25 pm
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III

Tu a beija e tu não amas, mas ela não sabe disso. Elas nunca o sabem, porque não conseguem perceber o que há por trás de teus gestos. Elas passam por tua cama e não te tocam; tuas defesas são numerosas demais. Eu, pelo menos, não lembro de nenhuma mais significativa em todos estes anos.

Eu apenas observo o ir e vir, alvo de ciúmes de quase todas. Elas almejam meu lugar na tua vida, sentem-se enciumadas e deslocadas; por isso fracassam, creio eu. Tu não facilitas: essa tua enorme dificuldade de abrir espaço e deixar alguém entrar na tua vida sempre me preocupou.

Já dormi com algumas delas, para te dizer a verdade. Já noivei uma delas. Por vezes penso que ficarei sempre com as tuas sobras – admito, és muito mais interessante e fascinante que eu. Exerce sobre aqueles ao teu redor uma atração estranha, que não sei bem identificar. É inevitável, e ainda não entendo o segredo desse teu charme do qual eu já fui vítima. Éramos crianças, lembro bem, quando te vi pela primeira vez no banquinho da escola. Foste uma criança linda, já te disse isso?

Te vejo segurar a mão dela entre as tuas sem dizer nada. Sempre me pergunto como não percebem. Sorrio para ela, embora mal saiba seu nome; sempre fui muito simpático a todas. Esta também passará. Eu, pelo menos, não lembro de nenhuma que tenha ficado em tua memória poética.